terça-feira, 30 de setembro de 2014

A Tradiçao Cristä

Afonso Maria Ligorio Soares *


Para que o estudioso capte algo de seu objeto de estudo, classificações são sempre inevitáveis. No entanto, elas são igualmente redutivas, pois tendem a cegar o observador de outras nuanças e aspectos também encontráveis na realidade examinada.

Com as religiões não é diferente. Precisamos classificá-las para poder dizer algo a seu respeito. Mas nenhuma delas cabe perfeitamente em nossas tipologias. A começar pelo próprio conceito “religião”. Para todo cientista da religião, o islamismo ou o judaísmo são mais do que meras religiões. E o mesmo se poderia dizer do budismo ou do hinduísmo, das tradições afrobrasileiras ou do cristianismo. O conceito “religião” não dá conta de explicar a imensa variedade do fenômeno religioso. Tomemos o cristianismo, por exemplo.

O cristianismo

Esse movimento gerado em torno do profeta Jesus de Nazaré era algo tão estranho aos olhos de seus contemporâneos que levou mais de dois séculos para ser aceito oficialmente como uma das tantas religiões praticadas dentro das fronteiras do Império Romano. Isso porque a comunidade cristã primitiva não contava com templos sagrados nem com sacerdotes, altares e cultos sacrificiais (cf. Carta aos Hebreus). Bastava a reunião semanal para a partilha da Palavra de Deus e a fração do pão. A linguagem habitual dos primeiros cristãos não provinha da terminologia sagrada, mas fazia uso de palavras da sociedade civil: ecclesia ou assembleia, presbíteros ou anciãos, diáconos ou garçons (servidores das mesas), epíscopos/bispos ou fiscalizadores/tesoureiros. Mais tarde, termos como diocese, mitra, cúria, província foram extraídos da organização administrativa do Império Romano.

O cristianismo é uma religião profética, mística ou sapiencial? Seria empobrecedor enquadrá-lo em apenas uma das alternativas. Jesus é um profeta da melhor estirpe do profetismo ético de Israel. Sua pregação visa uma volta ao espírito original da Tora, contra os casuísmos e acomodações escusas dos chefes religiosos daquele tempo. Provavelmente, Jesus nunca pensou em fundar “outra” religião; mas em denunciar e corrigir os mecanismos que reduzem o “deus” das religiões a instrumento a serviço das maquinações humanas.

A tradição cristã, entretanto, também acolheu em seus textos sagrados obras de caráter sapiencial. O próprio Jesus foi reconhecido como sábio entre seus contemporâneos. Igualmente rica é a tradição mística cristã, que nos legou nomes como Inácio de Antióquia, Irineu, Agostinho, João da Cruz, Teresa de Jesus e Edith Stein.

A historicidade do cristianismo


O que pode marcar uma distinção importante entre o cristianismo e outras tradições orientais (hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo) talvez seja a particular noção de historicidade do primeiro, por sua vez oriunda da concepção temporal do judaísmo. Conforme tal mentalidade, há um futuro terrenal em que as promessas divinas do passado serão cumpridas. O amanhã será melhor do que o hoje, e o povo de Deus poderá usufruir, um dia, da Terra Prometida. Tal crença fundamenta uma visão de progresso diferenciada da noção, em geral, cíclica, que a filosofia grega herdou dos orientais.

O zoroastrismo persa, com quem os judeus tiveram contato a partir dos séculos 6o a 5o a.C., deixou sua marca nessa vertente religiosa semita ao introduzir a noção de combate cósmico entre o bem e o mal. A História é o campo de batalha entre esses dois princípios, e os humanos que ficarem do lado do bem serão recompensados no dia do Juízo. O eco do zoroastrismo manteve-se na chamada “literatura apocalíptica”.

A doutrina cristã está em continuidade com essa expectativa, mas traz algumas inovações. Para Jesus, “o Reino de Deus já está entre nós” (Mc 1, 15), embora não em sua plenitude. O Reino não é um mero acidente geográfico a ser alcançado em certa época; nem uma realidade totalmente nova e independente do que está sendo construído na história humana. Santo Agostinho assim comentava outra frase de Jesus: “Sim, meu Reino não é deste mundo, mas está neste mundo”. A História é, por assim dizer, a parte que nos cabe criar dentro do projeto mais amplo de Deus, que a contempla e ultrapassa, mas não a suprime.

O Deus dos cristãos

Outra novidade cristã constitui o próprio fundamento da certeza de que a vida e o testemunho de Jesus são um marco definitivo na história da revelação de Deus. Trata-se da afirmação (escandalosa para judeus e muçulmanos) de que Jesus é a verdadeira e única encarnação de Deus na História. Ele não é só o filho de Deus; ele é Deus-Filho. Mais: Jesus encarnou-se por obra do Deus-Espírito Santo e esse mesmo Espírito deu origem à Igreja.
A pretensão cristã, embutida na fé trinitária, é enorme: unir o princípio filosófico de uma causa primeira e fundamental de toda a realidade (monoteís­mo metafísico) com a experiência popular da multiplicidade de manifestações do divino.

Como explicar, então, semelhante experiência de fé? Somente por metáforas, socorrendo-nos na mística cristã. São Boaventura proporá que o Pai (Lux) é o foco luminoso (Sol), o Filho (Lumen) são os raios de luz que dele partem, e o Espírito (Ignis) é o calor que coexiste no foco e acompanha os raios. Algo parecido já dissera Santo Atanásio: “O Pai é luz, o Filho seu brilho e o Espírito Santo, aquele pelo qual somos iluminados”. Deus se ocupou de nós e conosco de três maneiras diferentes. Deus antes de nós é o Criador e Pai; Deus conosco faz-se um ser humano dentro dos limites, adquirindo os condicionamentos da História; e Deus em nós e para nós, que continua a revelação do Filho, desdobrando novos significados: é o Espírito.

Mas Deus é sóbrio ao falar-nos de si mesmo. Seria inútil que ele se pusesse a discorrer conosco acerca do seu “de-dentro”. Diz São Bernardo: “Sei bem o que Deus é para mim; quanto ao que ele é para si, somente ele o sabe”.
Para o cristianismo, falar de Deus implica falar daquele lugar onde Deus se revelou: a pessoa e a história de Jesus; referir à Palavra, exigência de vida e esperança, que Jesus oferece ao mundo, isto é, seu Espírito.

A experiência e o discernimento do Espírito é a resposta àquela milenar ques­tão: Deus ainda se encontra no meio de nós? O cristão sabe que Deus está conosco em Jesus, na força que provém do Senhor ressuscitado, e que nos leva ao encontro do Pai. Esse movimento inapelavelmente histórico, só o fazemos no Espírito-Sopro-Vento. E desse encontro não surgem indivíduos de primeira classe (clero) nem de segunda (laicato); apenas cristãos: pessoas que, no Espírito, celebram a presença divina nos momentos mais significativos de suas vidas (sacramentos) e testemunham seu compromisso com o Reino/Reinado do Pai.

*Teólogo e cientista social, é assistente-doutor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (SP) e professor de Teologia Fundamental no Instituto de Teologia da Diocese de Santo André (SP).

Xamanismo:O Despertar da Consciencia

Cyro José Leão*


O xamanismo é a mais antiga for­ma de conexão do homem com o Sagrado. Nos primórdios da hu­ma­nidade, o homem descobriu que tinha o poder de “despertar” do estado de in­consciência, tal qual vive um recém-nascido. Detinha o poder de sair do cor­po e entrar no mundo da alma. En­trar em contato com o arquétipo do divino: a Deusa, o Deus e a Tudo que é o des­per­­tar da consciência. Passa a ter livre acesso à Deusa e a receber os co­nhecimen­tos necessários para seu po­vo. Surge, então, o xamã mítico, que pas­sa a ser o primeiro curador na sua co­mu­nidade. Na medida em que as do­enças apareciam, com a intervenção da Gran­de Deusa, ele recebia o conhecimento da cura.

Os rituais sagrados se iniciam e são celebrados pelo xamã, o primeiro reli­gioso. É uma época em que as pessoas acreditavam que a lua era deten­to­ra do poder da vida e da morte, pois pen­sa­vam que o sangue menstrual era o responsável pela gravidez e o mes­mo sangue, quando se esvaía, era o de­ten­tor da morte. Com o decorrer do tem­po, pas­saram a fazer sacrifícios de ­san­gue para fer­tilizar a terra. Era a época do ma­tri­ar­ca­do. Milênios se passam. O das Deu­sas se vai e chega o patriar­cado.

Lenda siberiana


A origem do xamã, segundo uma lenda siberiana, se deu num momento de caos total na terra. E o ser Supremo envia a Águia para colocar um pouco de ordem. Por ser um pássaro, ela não é compre­endida pelos huma­nos. A Águia (símbolo da consciência) en­­contra uma mulher (identificada como liberdade) sob a copa de uma árvore, co­pu­la com ela e daí nasce o primeiro xamã.

A palavra xamã deriva do dialeto tungu-saman, do sânscrito – sramana  e do páli – sa­mana e significa “o homem ins­pira­do pelos espíritos”.

Apesar de o xamanismo ter sido um a­con­tecimento do re-ligare com o ar­qué­tipo do divino, não é uma religião, e sim uma filosofia de vida, que ressurge neste século.

Mircea Eliade, em sua obra O xama­nismo e as técnicas arcaicas de êxtase, evi­denciou a perspectiva dos xamãs e descreve ritos na Sibéria, América do Nor­te, América do Sul, Indonésia, Oce­a­nia etc. De acordo com o autor, os xa­mãs são eleitos e por isso têm aces­so a uma região do Sagrado, inacessível a ou­tros membros da comu­nidade, e de al­gum modo cuidam da alma desta. O xamã é o grande especialista da alma hu­ma­na. Só ele a vê, pois conhece sua for­ma e seu destino.

Xamãs urbanos

Em 1960, inicia-se o movimento do retorno ao xamanismo, quando figuras como Carlos Castanheda e Michael Har­ner, ambos antropólogos, publicam as pri­meiras manifestações científicas so­bre o fe­nô­me­no. Michael Harner é ini­ci­ado como xamã nos andes equa­toria­nos por uma xamã jivaro. A partir desse mo­men­to, ele ­come­ça sua ca­minhada de trazer ao mun­do moder­no os conheci­men­­tos tão antigos e arqui­vados em nos­­sa me­mó­ria. Passa a difundir seu traba­lho nas univer­si­­dades norte-ameri­ca­nas, prin­ci­palmente na Uni­ver­­sidade de Columbia. Atra­vés de uma fita cassete, ele le­va o som do tambor a seus alu­nos, que entram em es­tado alterado de cons­ciên­cia xamânica. É o despertar dos neoxa­mãs, também chamados xamãs ur­banos que praticam os conhecimentos na­tivos na selva de pedra.

O que é o xamanismo?

O xamanismo é acima de tudo uma técnica de ampliação da cons­ciência e pode ser praticada por todos os credos. Sendo um caminho de busca, prevê uma disciplina teó­rica e prática. No que diz respeito à teoria, vamos buscá-la com xamãs, anciãos, homens e mulheres sá­bias, e leitura de textos de autores vari­ados, embora a tradição tenha sido sem­pre oral, há pouco tempo foi pas­sa­da para o papel.

A teoria é referendada pela prática de jornadas iniciativas, rituais, e viagens xa­mâ­nicas, em que ao som do tambor, o xa­mã conduz o aprendiz, com uma in­ten­­ção clara de entrar num leve estado alterado de consciência xamânica, que está gravado em nossa memória arcaica ou em nossas fitas de DNA. O xama­nis­mo é o retorno do Sagrado nos dias de hoje e consolida a sua ra­zão de ser atra­vés de ri­tuais e celebrações.

Ritos e celebrações

Temos algumas cele­bra­ções impor­tan­tes: rituais da lua cheia (reverência ao feminino e à intuição) e rituais da lua nova (alguns grupos fazem apenas com homens).

Os ritos de passagem são muito impor­tantes nas tra­di­ções antigas e são ainda preser­vados entre os indígenas. Dos 13 aos 14 anos, o menino deixa de ser cri­an­­­ça e torna-se ho­mem num ri­tual para o novo guer­reiro e a me­ni­na torna-se mu­lher quando recebe seu pri­mei­ro sangue (a primeira mens­truação).

A mudança das esta­ções é fundamental, pois marca o término de um ciclo e o início de outro. É a morte de uma es­tação e o re­nascimento da outra. O equi­nócio da primavera (23 de setembro) e o do outono (21 de março) são regidos pelo sol e, neste período, as horas do dia são iguais às da noite. No solstício de in­verno (21 de junho), temos a noite mais longa do ano e, no de verão, o dia mais longo do ano.

A preservação da natureza

Um dos pontos fortes do xamanismo é a preservação ambiental, e sua missão está em conscientizar o homem e a mu­lher modernos da sua responsa­bilidade no trato da mãe terra, que é a grande pro­­­vedora. Sua força e medicina está em man­ter o equilíbrio entre os quatro ele­men­tos da natureza: a terra, o ar, a água e o fogo. Quando estes elementos es­tão em desarmonia, temos as catás­tro­fes, tais como inundação, ­terre­mo­tos, mare­mo­­tos, furacões, quei­ma­das, efeito estu­fa, calor excessivo etc.

Por intermédio desse movimento, ve­mos nos últimos tempos uma busca in­cessante da preservação da natureza. De todos os la­dos do planeta, assistimos a ma­ni­fes­ta­ções, passeatas, campanhas e eventos pe­dindo a cura do planeta, o con­trole da poluição, a eco­no­mia da á­gua, pois os re­cursos na­turais estão se aca­bando e, se os hu­manos não a­cor­­da­rem para a sua re­cu­­pe­ra­­ção, o que será das ge­ra­ções futuras? Te­mos de fazer al­go, e es­te algo é agora. Va­mos em pri­mei­­­ro lu­gar equi­librar e cuidar da nossa eco­­logia in­ter­na para que isso possa re­fle­tir no e­­qui­­­lí­brio da ecologia externa. E esta é uma das propostas do neo­xama­nismo.

Ética xamânica

A conduta ética dos neoxamãs ou xamãs urbanos é baseada em cinco leis fundamentais de valores morais, que seguem a ética do coração – o ca­mi­nho do xamã nativo.
• Prática da impecabilidade do gue­r­reiro (a ética do coração).
• Prática da entrega (confiar num Ser Su­premo que proverá suas ne­ces­­si­da­des).
• Alcançar o máximo de eficiência com o mínimo de esforço (estar focado no que faz e praticar a disciplina do guer­reiro).
• Prática do desapego (estar presente no aqui-agora deixando ir o passado e não se projetando ou vivendo no futuro).
• Sair da causa e efeito e passar a viver a sincronicidade.

A filosofia é simples, mas depende de cada um querer seguir o seu caminho. Um deles é o do coração e é maravilhoso perceber que todos nós temos esse herói interno que está a serviço da cura e da religiosidade (do re-ligare) e pode ser acessado a qualquer tempo.

* Psicólogo, especialista em terapia floral, atendimento individual; ministra cursos e palestras, especialmente sobre vivência em xamanismo.

A mística do hinduísmo e do budismo

Joachim Andrade*

Plenitude por toda parte,
da plenitude origina-se plenitude.
Quando a plenitude se origina
 da plenitude, a plenitude permanece.
Om Paz, paz, paz.

(Invocação precedendo o Isa Upani­shad)

Não há paz entre as nações, sem a paz entre as religiões; não há paz entre as religiões, sem o diálogo entre as religiões; não há diálogo, sem ter uma profunda pesquisa nos fundamentos teológicos” – disse o teólogo alemão Hans Küng. Esta abordagem não levará a um profundo conhecimento das religiões sapienciais, mas dará uma ideia geral sobre o hinduísmo e o budismo.

Entre as religiões orientais, as mais importantes são: hinduísmo, confucionismo, taoísmo, budismo, jainismo e xintoísmo. O hinduísmo salienta a unidade do universo, pois ela parte dos três princípios básicos, Dharma, Samsara e Karma (Verdade, Vida e Ação). Esses princípios remetem a uma visão holística dos hindus, que aponta para uma realidade agrícola, com o processo cíclico e contínuo de nascimento, crescimento e morte. Esse processo da natureza deu espaço ao surgimento do conceito de Deus – Criador, Preservador e Destruidor. O agricultor tem tempo para descansar após a sementeira. Esse tempo ele o utiliza para meditar ou pensar nas questões básicas da vida, nas montanhas, à beira do rio ou em lugares isolados. Portanto, essa religião é considerada sapiencial, pois as Sagradas Escrituras são as coletâneas da experiência cotidiana do povo.

Criação e salvação no hinduísmo

A visão hindu do mundo e da salvação, ou moksha, é intimamente ligada à idéia da criação. Esta ocorre não como percebemos nas religiões judaico-cristãs ou na muçulmana, em que Deus cria o mundo do nada, mas ocorre a partir da dissolução do corpo de Deus, o qual se desintegra, e as coisas, os animais e os seres humanos começam a emergir. A salvação é nada mais do que o esforço de muitos tentando voltar ao Um. Essa ideia pode ser multiplicada inúmeras vezes tanto ao nível micro como ao macro.

Segundo a tradição hindu, as coisas que emanam de Deus são chamadas Atman ou pequena alma. O Deus é considerado Paramatman, Infinito, Impessoal ou Grande Alma. Quando a pe­quena alma que simboliza a criação atinge o moksha, significa que ela se dissolve no Grande Alma.

A ideia da salvação é incutida pelo fato de que o Todo se desintegra em muitos e os muitos desejam se dissolver em Um. Esses muitos potencialmente são reais, mas na maioria das vezes pensam que eles existem independentemente do Absoluto e, neste caso, caem na ignorância, ou seja, eles esquecem que estão conectados com o Um.

Apresenta sua soteriologia a partir do mal, que no hinduísmo é a ignorância. A causa do mesmo está no que se faz (karma) de mal em vidas passadas ou também durante a vida do presente. Conhecemos a prece “guia-me do irreal ao real, da escuridão à luz, da morte à imortalidade”. Para se chegar à libertação, são indicados três caminhos conhecidos como Jnana marga, o caminho do conhecimento; Bhakti marga, o caminho da devoção; e Karma marga, o caminho do serviço. Como o hinduísmo não possui o conceito da salvação operada por um mediador como no cristianismo, a sua religiosidade é profundamente individualizada, pois cada um deve operar por si mesmo a sua libertação.

O misticismo hindu

O misticismo do hinduísmo remete a mais uma ideia nova da espiritualidade indiana, que se manifesta de forma espiral. Na medida em que uma pessoa faz o bem, está caminhando na direção do centro e em caso oposto está caminhando na direção afastada do centro. Mas sempre todos estão ligados ao centro na linha espiral, como todas as ruas estão ligadas de certa forma a outra com a estação rodoviária de qualquer cidade. Também existe uma possibilidade de pular de um lugar para o outro na linha espiral, segundo a sua ação. Quando se atinge o centro, sempre se perde a sua identidade, mas o que permanece nada mais é do que o centro.

Inúmeros templos são construídos de uma forma redonda ou retangular, colocando a figura de Deus no centro. Normalmente existem sete portas para se chegar ao centro, simbolizando purificação de sete elementos que bloqueiam os três caminhos já citados, começa com a sensualidade e termina com seu próprio corpo. Somente através do desapego ­total se consegue chegar ao centro do templo, ou seja, consegue se unir a Deus.

Ritos hindus na Índia

O ritual se baseia em duas pressuposições fundamentais e interdependentes: na primeira, o si mesmo (self) é potencialmente divino e pode se desenvolver ilimitadamente; na segunda, como corolário da primeira, a realidade para o Absoluto é a meta principal a ser buscada. Em um polo está o si mesmo ou as aspirações individuais esperando serem liberadas ou iluminadas, e no outro, a meta final. Entre esses dois polos se encontra o estado intermediário de se chegar à meta. Isso é o ritual. Em si os ritos utilizam  três componentes principais, os yantras, elementos geométricos ou numéricos; os mantras, elementos sonoros e rítmicos; e os tantras atos simbólicos, que incluem certos gestos (mudras).

Os yantras são diagramas dotados de poder oculto. Baseiam-se em combinações de números e de traçados geométricos que tracejam estruturas harmônicas nas quais alguns números primos parecem desempenhar um papel essencial. Os mantras são fórmulas sonoras de caráter mágico, repetidas segundo ciclos rítmicos. Já os tantras são práticas de caráter ritual, que comportam atos aparentemente gratuitos, permitindo o estabelecimento de contatos entre mundos ou estados de ser diferentes.

Encontram-se ritos chamados sandhya, que se cumprem no momento da transição entre a escuridão e a luz da manhã, relacionado ao nascimento e ao ocaso do sol, considerado uma hora especial para a oração, acompanhado de um banho. Também há os ritos de oferenda aos deuses e às almas dos defuntos, recitação do terço chamado japamala, que contém mil contas simbolizando mil nomes de Deus. Além disso, têm sacramentos, chamados samskaras, ligados aos ritos de passagem.

O melhor lugar para a realização dos ritos é onde se encontram juntos três elementos da natureza – rocha, água e verde –, pois neles os deuses preferem morar. Por isso templos foram construídos à beira dos rios providenciando os elementos aptos para a adoração. Na tradição indiana, esses três elementos da natureza fazem parte da busca espiritual. A rocha simbolizando a estabilidade; a água, a peregrinação; e o verde, a vida.

O budismo

O budismo teve seu início como uma ramificação monástica do hinduísmo. Originalmente foi pensado para um grupo seleto que aspirava a uma vida de dedicação total. Buda, o iluminado, foi príncipe chamado Siddhartha Gautama que saiu de seu palácio pela primeira vez, aos 29 anos, e descobriu a grande escala da miséria humana. Surpreso e sem saber o que fazer, deixou tudo e dedicou-se a descobrir o mistério da vida. Depois de 12 anos de meditação, chegou ao estado de iluminação, descobrindo que a causa da dor está no dukha ou desejo.

Toda a essência do budismo está contida em quatro proposições que os fiéis denominam verdades nobres. A primeira apresenta a existência da dor como ligada ao eterno fluir das coisas; a segunda mostra no desejo a causa da dor; a terceira faz da supressão do desejo o único meio de suprimir a dor; a quarta enumera as três etapas pelas quais é preciso passar para chegar a essa supressão. São oito vias retas: consciência, intenção, palavra, ação, vida, esforço, saber e recolhimento.

Cosmovisão budista

Três elementos principais, impulsionados pelo Lama Garab Dorbji: ouvir, meditar e agir. No budismo, a validade da doutrina é transmitida somente quando testada pela experiência. Para isso, a tranquilidade mental é necessária. Daí a importância da meditação. Uma vez que tenha a experiência, o indivíduo busca o método. Buda veio ajudar os seres com esse método.

O método é simples: o budista não se preocupa em saber a origem deste mundo do devir, no qual vive e sofre; toma-o como um fato, e seu esforço é para se livrar dele. Não tem nenhum deus a agradecer, da mesma forma que, nas lutas, nenhum deus é invocado para ajudá-lo. Sendo o caminho totalmente individual, Buda analisa o processo em que o ser humano entra na roda da vida com o sofrimento. Reconhece que temos seis sentidos e é através deles que experienciamos o mundo externo. Se o contato for agradável, surge uma sensação gostosa no corpo, se for desagradável, uma sensação negativa.

A capacidade de manter a respiração inalterada é o segredo do budismo. Por isso, em primeiro lugar Buda sugere que conheçamos as leis da natureza, pois a lei é a mesma, seja no corpo humano ou na própria natureza. Se alguém fizer algo contra a natureza, ela castiga. Sendo familiar com a natureza, é possível equilibrar a vida. Para isso, é necessária a meditação, que leva à iluminação e nela todo mundo parece feliz. Mas cada um deve enfrentar isoladamente a si mesmo – na doença, na velhice e na morte, pois nesses três elementos ninguém pode substituir ninguém.

Nem todos conseguem ter a clareza dos propósitos por causa do redemoinho da atividade cotidiana. É por isso que existem seres iluminados chamados Bodi­satvas, aqueles que já atingiram o estado de iluminação, mas permanecem na terra para ajudar os que necessitam. A palavra Dalai Lama significa o perfeito Buda da compaixão.

Há uma crítica ao budismo pela falta da participação na transformação da sociedade. Mas, a meu ver, os três princípios, Buda, Dhama e Sangha, ajudam a compreender a participação. A noção da palavra Buda remete à pessoa de Siddhartha, um ser humano como nós, que chegou ao estado de iluminação. Dhama aponta para a universalidade da doutrina do budismo. Sangha é a comunidade dos seres iluminados e dos “bons amigos”, os Bodisatvas, e se manifesta trazendo enorme benefício a todos os seres, aliviando suas dores, conduzindo-os ao verdadeiro caminho de libertação e apontando-lhes a correta compreensão da realidade.

* Bacharel em Filosofia, Teologia, Literatura Inglesa e História. Especialização em Dança Clássica Indiana e em Grandes Religiões Orientais. Mestrando em Antropologia Social na Universidade Federal do Paraná.
 
Fonte-Revista Diálogo
 

O SIMBOLISMO DA ÁGUA NAS TRADIÇÕES RELIGIOSAS








A água é um bem comum considerado um patrimônio da humanidade, pois ela é o alicerce da natureza. Sem ela não haveria vida na terra, por isso precisamos ter todo cuidado para não desperdiçá-la, para o bem de todos. O Brasil é um dos países mais rico em água doce. Sua bacia hidrográfica é a mais intensa formada por cerca de 12% de água doce do Planeta. Por isso é considerada um símbolo não somente de pureza, mas também, de vida. 
É importante ressaltar a importância da água para o ser humano, pois cerca de 3/4 do planeta é coberto de água e o próprio corpo humano possui aproximadamente 87% de água.
Tem um desempenho preponderante nas várias religiões pelo seu poder purificador, que a utilizam em seus rituais, tais como: O Cristianismo, o Islamismo, o Judaísmo, o Hinduísmo, o Espiritismo, as Religiões Afro, Indígenas, Xintoísmo e Wicca.


No Cristianismo a água é utilizada no batismo para fazer o renascimento da pessoa, para se purificar dos pecados e ter uma vida nova. No catolicismo: Tem-se a água benta que é considerado como uma espécie de medicação espiritual. Na Nova Versão Internacional da Bíblia, o termo "água" é mencionado (442) vezes. Temos o batismo de Jesus no Rio Jordão (Mc 1,9).
Por outro lado, no Novo Testamento, a “água viva” ou a “água da vida” representa o espírito de Deus, isto é, a vida eterna.
No Islamismo: todas as mesquitas possuem uma fonte de água, normalmente uma fonte, para esta ablução. Por fim, o último tipo de ablução diz respeito às situações em que a água escasseia – nesse caso os Muçulmanos usam areia para a lavagem.
No Judaísmo: Os Judeus usam a água para lavagens rituais com o objectivo de restaurar ou manter um estado de pureza. A lavagem das mãos antes e depois das refeições é obrigatória.
Tanto no Judaísmo quanto no Islamismo os mortos são banhados, simbolizando a passagem para uma nova vida eterna espiritual.
No Xintoísmo e na Wicca, a água é usada em quase todos os rituais de limpeza dos praticantes.
Na religião Wicca a água é tida como um dos símbolos da Grande-Deusa, assim como o caldeirão e o cálice. Também existe a crença na existência de cinco elementos constituintes do Universo, sendo eles: o fogo, o ar, a água e a terra e o akasha (a manifestação da energia divina).



No Hinduísmo, o Rio Ganges é uma das maiores referências para os hindus.  É personificado como uma deusa.
Em outras tradições deuses e deusas são mencionados nas nascente dos rios e dos lagos.
Para os Hindus, a água está imbuída de poderes de purificação espiritual, sendo a limpeza matinal com água uma obrigação diária. Todos os templos se situam perto de uma fonte de água, e os crentes têm de se banhar antes de entrarem no templo. Muitos lugares de peregrinação encontram-se nas margens de um rio, sendo que locais de confluência de dois ou até três rios são considerados particularmente sagrados.

No Espiritismo: A água que as pessoas utilizam no estudo (culto) do evangelho no lar tem por objetivo a fluidificação da água, ou seja, sua magnetização com fluidos (energias) mais puras. Neste caso a água recebe as energias doadas pelos amigos espirituais e ajuda no equilíbrio do corpo físico e espiritual de quem ingeri-la.


Nas Religiões Afro a água tem um grande significado. "É representada como um dos principais simbolismos nos banhos, pois é o elemento que deve ser oferecidos a todos os Orixás e pelo seu poder na natureza é considerado o sêmen, a fecundidade do sangue branco feminino". Kosi Omi Kosi Àse (Axé) expressão da língua yorubá que traduzido significa "sem água não existe vida, energia ou força vital." As matrizes africanas veneram as águas como manifestação maternal do amor divino.

Nas Religiões Indígenas: O pajé Krenak lembrou que “para a maioria das culturas indígenas, a água é considerada um espírito, que concede vida a todos os seres que a rodeiam. Ele lamentou que as antigas gerações não tenham atentado para a importância da preservação dos recursos hídricos do planeta. Já Benki, entoou um cântico de sua tribo que fala de pássaros que se banham em rios espalhando alegria por onde voam.” Os indígenas reverenciam a água como a morada dos espíritos e alguna acreditam até mesmo que o ser humano vem das águas.

Na filosofia Budista: “O ato de oferecer um copo de água fresca ao Gohonzon (supremo objeto de adoração do Verdadeiro Budismo) tem origem na valorização que a antiga sociedade indiana tinha em relação a água - pois devido ao clima quente, as qualidades da água em purificar e refrescar eram apreciadas. Como forma de expressar nossa sinceridade na fé, oferecemos ao Gohonzon um copo de água fresca todas as manhãs, e no decorrer dos anos, o costume de remover e jogar a água, geralmente antes do gongyo (recitação do Sutra) da noite, foi se estabelecendo. Para os budistas o simbolismo e os rituais não fazem sentido porque procuram a iluminação espiritual que advém de ver a realidade da irrealidade.  No entanto, a água está presente nos funerais Budistas, sendo vertida sobre uma taça que transborda perante o corpo do defunto e dos monges que recitam “Como as chuvas enchem os rios e transbordam para os oceanos, também o que é oferecido aqui possa chegar aos que partiram”.

              Retirado de vários textos da Internet de acordo com o título acima.

BLOG SENSACIONAL;http://pensandooensinoreligioso.blogspot.com.br/2013/04/o-simbolismo-da-agua-nas-tradicoes_13.html