terça-feira, 17 de março de 2015

Aluna é ameaçada de eliminação no exame da OAB por usar véu

Izabelle Mundim
Do UOL, em São Paulo
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    Charlyane sofreu constrangimento no exame da OAB por usar véu muçulmano
    Charlyane sofreu constrangimento no exame da OAB por usar véu muçulmano
No último domingo (15), milhares de formandos e bacharéis em Direito se submeteram ao XVI Exame de Ordem Unificado da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em todo o país. Uma delas foi Charlyane Souza, 29, que está no 9º período de direito e se preparou para a prova com o objetivo de obter o sonhado registrado na Ordem e se tornar advogada após se formar.

Mas, ao contrário das outras estudantes que prestaram a prova no mesmo local, Charlyane usava um hijab, tradicional vestimenta muçulmana, e foi ameaçada de eliminação no exame, caso não o tirasse. "Li todo o edital da prova e não havia nada que falasse sobre o lenço, mas fui preparada para ser revistada", diz.

Quando chegou ao local da prova, que é organizada pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), ela foi revistada. Constataram que ela não portava nenhum objeto embaixo do hijab e a orientaram a ir para a sala. "Quando se passou cerca de uma hora do início da prova, uma representante da FGV me convidou para acompanhá-la. Parei a prova e fui", conta.

A coordenadora perguntou a Charlyane se ela era brasileira e disse que, de acordo com o edital, a estudante não poderia realizar a prova portando objetos de chapelaria. "Eu respondi que não estava usando um objeto de chapelaria, mas um hijab que fazia parte da minha vestimenta e que eu usava em todos os lugares, trabalhava e estudava com ele", diz.

Véu deve ser autorizado na sala de processos seletivos?

Resultado parcial
Ela perguntou se Charlyane tinha alguma comprovação de que pertencia à religião, afirmando que qualquer pessoa poderia chegar "fantasiado, alegando ser muçulmano". "Eu expliquei que já havia sido revistada e ela disse que, usando o hijab, eu poderia constranger as outras pessoas e que se não tirasse, eu seria eliminada".

O item do edital de abertura do exame que trata do porte de objetos diz que será eliminado o examinando que for surpreendido durante a prova portando aparelhos eletrônicos diversos "ou quaisquer acessórios de chapelaria, tais como chapéu, boné, gorro etc", mas nada fala sobre a vestimenta.

A coordenadora informou à estudante que no ato da inscrição deveria ter solicitado atendimento especial para realizar a prova em sala individual. O edital do exame só trata da necessidade de atendimento especial em caso de deficiência ou doença que justifique tais condições especiais ou para examinandas durante o período de lactação.

A coordenadora disse que Charlyane poderia voltar para a sala ciente de que poderia ser eliminada.

Mais constrangimento

"Voltei para a sala e após mais uma hora de prova sou chamada pelo vice-presidente da Comissão do Exame da OAB [Rubens Decoussau Tilkian]. Levantei e fui chorando", diz. O vice-presidente e dois advogados da Comissão do Exame disseram que entendiam Charlyane, mas que ela não poderia fazer a prova usando o hijab.
"Eu disse que como eles eram advogados poderiam entender que eu estava exercendo o meu direito de cidadã, que não há lei no Brasil que proíba manifestação religiosa e que eu só queria fazer a minha prova", diz.

Os advogados perguntaram se ela se sentiria constrangida se fosse convidada a retirar o lenço e voltar para a sala. "Eu disse que iria repetir que eu não podia retirar meu véu em locais públicos e que seria ainda mais constrangedor se eu voltasse para a sala sem, depois de sair duas vezes", diz.

Charlyane terminou a prova em uma sala individual e afirmou aos advogados que iria reclamar judicialmente. "Eu fiquei totalmente constrangida, não consegui mais fazer o exame e, apesar de ter estudado muito, não fui aprovada", diz.
"Estamos aguardando o posicionamento da OAB e da FGV em relação ao caso e se houver inércia da parte deles, iremos recorrer a vias judiciais", afirmou Daniela Coelho, advogada de Charlyane.
A reportagem também entrou em contato com a OAB-SP e com a FGV Projetos, que organiza a prova, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

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segunda-feira, 16 de março de 2015

‘Literatura associada ao adjetivo negro incomoda’, diz editor de coletivo

21/11/2014 08h20 - Atualizado em 22/11/2014 17h24

‘Literatura associada ao adjetivo negro incomoda’, diz editor de coletivo

Para Guellwaar, literatura brasileira precisa explicar porque é tão branca.
Escritores e pesquisadores de coletivo baiano defendem a literatura negra.

Danutta RodriguesDo G1 BA
Existe literatura negra ou apenas uma literatura universal? A partir dessa provocação que quatro escritores e uma pesquisadora do coletivo literário baiano “Ogum’s Toques” afirmaram, em conversa com o G1, que o negro como adjetivo de literatura não pode ser interpretado como restrição e é a literatura brasileira que precisa explicar porque é tão branca. “O negro na literatura brasileira transforma o sentido e a produção do sentido do fazer literário. Mais do que querer impor domínios e fronteiras, ele está provocando uma enunciação de uma série de sujeitos e escritores que sempre estiveram aí, mas não alcançaram esse lugar de enunciação”, defende Ari Sacramento, escritor e professor do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
(O G1 publica até domingo (23) matérias com temas relacionados ao mês da Consciência Negra)

Para Guellwaar Adún, compositor, educador, escritor e editor do coletivo “Ogum´s Toques”, todas as vezes que o adjetivo negro é associado a alguma coisa positiva, isso incomoda a sociedade brasileira. “Cabe sempre associar o negro a algo ruim. Se você fala em vala negra, em câmbio negro, mercado negro, lista negra, quando o adjetivo está associado a algo ruim isso não incomoda a sociedade brasileira. Mas quando você associa à grande arte, que é a literatura e você associa isso ao adjetivo negro, me parece que cria alguns frissons porque o que foi afirmado historicamente é que esse sujeito não pensava, não é um sujeito de conhecimento e aí ele está dizendo que faz literatura?”, reflete Adún. (No vídeo acima, escritores e pesquisadora declamam poemas de autores negros)
Não só o lugar de fala, mas acima de tudo o da representação e identificação. É assim que a pesquisadora Cristian Sales compreende o significado da literatura negra. Além de promover o discurso e defender o discurso, a literatura negra humaniza o personagem negro, a personagem negra.
“Ela milita num campo de construir uma tessitura literária que está interessada em visibilizar a voz do escritor negro, dar corpo a esse corpus novo literário, narrativo, poético, que vai inserir a mulher negra e o homem negro em outras histórias, não a história do malandro, não a história da prostituta, não tem nada disso, está para além disso. A gente quer a visibilidade, mas uma visibilidade que nos humanize, e eu acho que isso pode definir a literatura negra”, afirma. "É importante destacar no nosso discurso que estamos falando de negros e negras, não de afrodescendentes", alerta Cristian Sales.
Mel Adún e Henrique Freitas, escritores do coletivo Ogum´s Toques (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Mel Adún e Henrique Freitas, escritores do coletivo
Ogum´s Toques (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
A jornalista e escritora Mel Adún reforça o discurso de Cristian Sales e defende que a literatura negra conta o outro lado da história, e não apenas uma história única e estereotipada.
“Claro que vai ter malandro, mas não tem só essa face, tem outras faces e tem esse caminho mesmo de como se chegou até ali. O que a gente vê na história da literatura brasileira são personagens negros e negras sem sobrenome, sem família, com funções de uso mesmo é serviçal em todos os sentidos”, revela. “Não é que ela não vá abordar esses personagens, mas até esses personagens, quando eles são abordados, eles são tomados dentro da sua integralidade, de como eles chegaram naquele lugar”, complementa Guellwaar Adún. 
Feira de Frankfurt
Em 2013, o Brasil foi homenageado na Feira de Frankfurt, na Alemanha. Na ocasião, o país foi considerado como racista por ter apenas um negro na lista de 70 autores selecionados para participar do evento. "Eu pergunto o que significa essa literatura universal? E eu tenho a curiosidade de saber que conhecimento essas pessoas que defendem isso têm sobre as literaturas africanas ou a literatura negra ou sobre autores negros. E aí a gente descobre que esse universal ele diz respeito a um universal extremamente particular. A Feira de Frankfurt, o ano passado, demonstra o quão particular é esse universo", comenta o professor do Instituto de Letras da UFBA e escritor Henrique Freitas.
Para ele, no momento em que a seleção feita no Brasil levou essa representação da literatura nacional, é perceptível e emblemática a forma como é pensada a diversidade na literatura brasileira. "Temos escritores traduzidos para o alemão, com coletâneas que temos sucesso na Alemanha. Nem essa justificativa de que não tínhamos autores negros traduzidos para o alemão ela não é mais válida", afirma. Henrique Freitas ainda diz que discutir literatura negra não é discutir inclusão. “A gente precisa entender que a literatura negra ela traz contribuições decisivas para que a gente constitua, efetivamente, essa literatura brasileira em dever. Enquanto essa literatura negra e a produção literária indígena, em sua amplitude, não for contemplada nesse corpo que a gente chama de literatura brasileira, nós não teremos uma literatura brasileira”, defende.
Ari Sacramento diz que literatura canônica provoca silenciamento da literatura negra (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Ari Sacramento diz que literatura canônica provoca
silenciamento da literatura negra
(Foto: Danutta Rodrigues/G1)
Ari Sacramento ainda complementa e diz que quando afirmam que só existe ‘A Literatura’, o que existe na verdade é uma denúncia.
"Denúncia de silenciamento, mas também há uma enunciação de outras demandas que estão sendo expressas. Então não é um lugar de ressentimento, não é um lugar de ‘apequenamento’ do sujeito, é na verdade reclamar esse lugar e denunciar algumas formas de silenciamento da literatura, que a literatura canônica provoca”, conclui.

Ogum´s Toques
“Autores negros existem, sempre existiram e continuarão a existir”. Esse trecho escrito pela jornalista e autora Mel Adún está inserido na orelha da coletânea poética Ogum´s Toques Negros, que reúne textos literários dos escritores negros AlexRatts, Alex Simões, Ari Sacramento, Claudia Santos, Daniela Luciana Silva, Dú Oliveira, Éle Semog, Elizandra Souza, Gabriela Ramos, Guellwaar Adún, Henrique Freitas, José Carlos Limeira, Júlia Couto, Lia Vieira, Lívia Natália, Mel Adún, Miriam Alves, Say Adinkra e Silvio Roberto. Outros tantos autores compõem o corpus da literatura negra como Lima Barreto, Conceição Evaristo, Machado de Assis, Maria Firmina dos Reis, Oswaldo de Camargo, Luiz da Gama, Paulo Lins, Cristiane Sobral, Lande Onawale, Nelson Maka, Rita Santana, Tom Correia, Carolina de Jesus, Antônio Diniz da Cruz e Silva, entre tantos outros.
Guellwaar Adún e Cristian Sales em conversa com o G1 (Foto: Danutta Rodrigues/G1)Guellwaar Adún e Cristian Sales em conversa com
o G1 (Foto: Danutta Rodrigues/G1)
O coletivo literário baiano, além de destinar espaço às discussões a respeito da literatura negra nas redes sociais, também dá visibilidade às produções literárias dos escritores negros. Atualmente o grupo faz uma campanha internacional de crowdfunding para publicar dez livros e consolidar a editora Ogum's Toques.
Em dezembro, o coletivo irá promover, de 15 a 20, a segunda Primavera Literária, em Salvador, que vai contemplar dois eventos integrados: o seminário ligado à Universidade Federal da Bahia (UFBA) chamado Áfricas e Negritudes, em que intelectuais que pensam a literatura negra no Brasil e fora do Brasil; e a segunda semana literária da Ogum´s Toques. Para saber mais sobre o coletivo, clique aqui.
http://g1.globo.com/bahia/noticia/2014/11/literatura-associada-ao-adjetivo-negro-incomoda-diz-editor-de-coletivo.html

STF convida entidades para discutir ensino religioso em escolas públicas


Procuradoria Geral da República quer impedir que religiosos deem aula.
Interessados em falar na audiência devem enviar currículo até 15 de abril.

Renan RamalhoDo G1, em Brasília
O Supremo Tribunal Federal decidiu realizar no dia 15 de junho uma audiência pública para discutir como devem ser ministradas as aulas de ensino religioso nas escolas públicas.
O objetivo do debate é orientar os ministros para o julgamento de uma ação, proposta pela Procuradoria Geral da República, para que a disciplina tenha caráter não confessional, isto é, não possa ser ministrada por representante de determinada religião, de modo a evitar favorecimento à sua crença. A proposta é que o conteúdo seja ensinado por professores regulares da rede pública.

As entidades, órgãos ou especialistas interessados em falar na audiência pública devem enviar um e-mail para o STF (no endereço ensinoreligioso@stf.jus.br) até 15 de abril, com currículo de até uma página do expositor e sumário das posições a serem defendidas na audiência.

Relator da ação no STF, o ministro Luís Roberto Barroso informou, em despacho de convocação da audiência, que serão selecionados participantes com representatividade na comunidade religiosa ou entidade interessada, além de especialização técnica e expertise do expositor. A seleção buscará garantir pluralidade dos pontos de vista a serem defendidos.
O ministro já convidou 12 entidades para participar do debate, que poderá se estender por mais dias: Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Confederação Israelita do Brasil (Conib), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Convenção Batista Brasileira (CBB), Federação Brasileira de Umbanda (FBU), Federação Espírita Brasileira (FEB), Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), Igreja Assembleia de Deus, Liga Humanista Secular do Brasil (LIHS), Sociedade Budista do Brasil (SBB) e Testemunhas de Jeová.

Barroso destacou três pontos a serem discutidos:
- relações entre o princípio da laicidade do Estado e o ensino religioso nas escolas públicas;
- as diferentes posições a respeito dos modelos confessional, interconfessional e não confessional e o impacto de sua adoção sobre os sistemas públicos de ensino e sobre as diversas confissões religiosas e posições não religiosas;
- as diferentes experiências dos sistemas estaduais de educação com o ensino religioso.

Ação
A ação da PGR foi apresentada em 2010 e ainda não tem data para ser julgada. Nela, a subprocuradora da República Deborah Duprat propõe que as aulas de ensino religioso na rede pública ocorram "sem qualquer tomada de partido por parte dos educadores" e que o conteúdo se limite à "exposição das doutrinas, práticas, história e dimensões sociais das diferentes religiões, incluindo as posições não religiosas".

Ela argumenta que o caráter laico do Estado não significa vetar o ensino de religião nas escolas públicas, mas por outro lado, impõe "neutralidade" em relação às distintas religiões presentes na sociedade brasileira, "de modo a vedar o favorecimento ou embaraço de qualquer crença ou grupo de crenças".
Na ação, ela diz que o modelo não confessional protegeria "o Estado de influências provenientes do campo religioso, impedindo todo tipo de confusão entre o poder secular e democrático, de que estão investidas as autoridades públicas, e qualquer confissão religiosa".

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) estabelece que a matrícula no ensino religioso nas escolas públicas não é obrigatória. Ela também proíbe "quaisquer formas de proselitismo" e diz que deve ser "assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil".

Conforme a mesma lei, os sistemas de ensino devem ouvir entidades da sociedade civil de diferentes religiões para definir o conteúdo e normas para a habilitação e admissão dos professores.

Em 2010, foi decretado um acordo firmado entre o Brasil e o Vaticano prevendo "o ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas" nos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. O texto também garante "respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil" e proíbe "qualquer forma de discriminação".
http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/03/stf-convida-entidades-para-discutir-ensino-religioso-em-escolas-publicas.html

DINÂMICAS PARA AS AULAS DE ENSINO RELIGIOSO - BRÍGIDA KARINA LIECHOCKI

terça-feira, 10 de março de 2015

Gustavo, 10 anos, dá uma aula de cidadania contra o racismo





Uma aula de inclusão racial com um menino de 10 anos
"É importante mostrar a realidade a partir do ponto de vista do próprio negro". Menino de dez anos surpreende e dá aula sobre inclusão e integração racial





O Projeto Leituraço, realizado desde o último dia 3 pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, propôs maior reflexão para a sociedade a respeito de suas raízes, neste mês em que se comemora o Dia da Consciência Negra (20) em alguns municípios. Até amanhã (14), quando termina o projeto, 800 mil alunos de 1.462 escolas de educação infantil e de ensinos fundamental e médio terão realizado leituras simultâneas de obras africanas e afro-brasileiras.


A reportagem da TVT, em visita ao CEU Vila Curuçá, na zona leste da cidade, conversou com Gustavo Gomes da Silva, de 10 anos, que deu uma aula sobre cidadania. Veloz e consciente nos argumentos, o garoto da 5ª série do fundamental, falou sobre a importância de se conhecer a cultura afrobrasileira para combater o racismo.


Leia também: Ensino da cultura negra nas escolas ainda sofre resistência


“Se eu sou mesmo afrodescendente, eu quero saber as histórias da África, porque mesmo que não apareça a moral, como nas fábulas, elas têm uma moral escondida que você aprende.” Para Gustavo, os heróis negros desses contos ajudam as pessoas a respeitar os outros, ensinam que ninguém vive sozinho, isolado. “São todos em conjunto para combater o preconceito, a fome.”


Gustavo defende o debate proposto pelo Leituraço, já que “sempre haverá alguém racista”. “É importante mostrar a realidade a partir do ponto de vista do próprio negro”, defendeu.


http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/11/uma-aula-de-integridade-racial-com-um-menino-de-10-anos.html

segunda-feira, 9 de março de 2015

REVISTA TRIPLOV de Artes, Religiões e Ciências -ELIANE POTIGUARA



Povos indígenas sempre estiveram à margem dos padrões culturais brasileiros, pela intolerância e discriminação social e racial da cultura dominante que obviamente estabelece as regras da informação e comunicação. No entanto um passo positivo foi dado na FLIMT, Feira do Livro Indígena de Mato Grosso, de 06 a 11 de outubro de 2009, em parceria com a Secretaria de Cultura/Governo do Estado do Mato Grosso, Nearin e Inbrapi, quando demonstraram seu potencial nas artes e nas letras, trazendo para a visibilidade sua cosmovisão e demandas. É uma nova forma de trabalho pelos direitos humanos.


Quando líderes promovem informações em rádios, vídeos, TVs Comunitárias, contrapondo às aldeias globais ou ainda quando criam cartilhas de alfabetização na língua materna, ou quando criam sites para promover a cura de doenças ou comerciar a venda do Guaraná, por exemplo, o fazem numa tentativa de sair da invisibilidade cultural, objetivando a tonificação daquele povo ou cultura, e no objetivo de expressar-se, seja na luta pelos direitos humanos ou trazer à luz do conhecimento oficial, científico, acadêmico e religioso a sua contribuição na história, enfim o seu conhecimento tradicional, na realidade sua propriedade intelectual. Isso precisa ser respeitado e ampliado! Povos indígenas já não precisam de muletas, são protagonistas da sua história.











ELIANE POTIGUARA






Minha Pedra Verde






















Quando parteiras e mulheres indígenas questionam programas de esterilização, quando pajés e curandeiros se reúnem nas matas e montanhas, ou quando líderes interceptam estradas ou hidrelétricas na defesa de suas terras, o fazem para defenderem suas tradições e meio-ambiente. Isso é voz!... A voz da biodiversidade indígena.


Quando indígenas criam grupos de dança, músicas, grupo de teatro, coral infantil, quando promovem imprensa escrita na Internet, promovem a literatura indígena (oral ou escrita), o fazem no objetivo pleno de difundir informações e comunicações que não conseguem, devido à desvalorização dessa cultura milenar, que por questões históricas, éticas, precisa finalmente ser reconhecida e respeitada na prática e porque não também, ser atendida por uma política compensatória, através de ações afirmativas, implantadas nas políticas públicas. A Lei 11.645 que orienta ao ensino étnico nas escolas é um caminho que precisa ser mais fortalecido pelas Secretarias de Educação e Cultura.


Todas essas variantes fazem parte da cultura indígena e estão interligadas numa única cosmologia: o território ancestral, o espaço ético, mítico, místico, mágico e sagrado da ancestralidade fortalecidos pelos anciãos e anciãs e perpetuados pelos jovens, através da educação informal e natural, reforçados pela educação formal, daí a importância também da Universidade Indígena, dos Círculos dos Saberes, para atender a uma educação diferenciada. Essa visão indígena é uma grande contribuição de vida para a sociedade brasileira que precisa ser estimulada para um respeito à diversidade cultural, onde a cultura indígena seja também um expoente.


Nossas ervas medicinais, nossa cerâmica marajoara de origem indígena, nossos alimentos tradicionais, nosso guaraná, cupuaçu, nossos lugares sagrados, nossas terras, nossos cemitérios, nossas cantigas, histórias e lendas, nossas orações, nossos cânticos sagrados, nossa caça, nossa pesca, nossa educação, saúde e agricultura são as nossas vidas. Essa cosmologia pode ser difundida na sociedade de informação, fortalecida pelas Redes de Comunicação Indígena, pelas rádios comunitárias, pela internet através dos sites, pelos canais de televisão, e mesmo pelas Conferências ou Seminários indígenas, olho a olho ou virtuais, mas não mais precários, mas de uma forma digna, tecnológica, científica, educativa e sistemática, apoiada pelo GOVERNO. Assim abrimos espaços nas Feiras de Livros, a exemplo da FNLIJ, FLIFLORESTA, FLIMT, entre outras que estamos percorrendo. É uma vitória.


É um desafio que deve ser ultrapassado através da conscientização, da capacitação, da formação técnica, da criação de bancos de dados indígenas para garantir todo acervo histórico, garantindo suas patentes, conhecimentos e propriedade intelectual. A cultura tradicional também sofre evoluções com o modernismo e tecnologias. Essas tecnologias devem ser usadas como ferramentas para a defesa dos direitos indígenas. Desenvolvimento para povos indígenas deve ser um processo que coaduna cultura tradicional e novas tecnologias e novas esperanças. Povos indígenas devem se espelhar neste modelo de desafio, como foi na FLIMT, Feira do Livro Indígena de Mato Grosso.


Por esses conhecimentos tradicionais vou contar uma história aqui:


“O primeiro choro foi anunciado na região leste do Brasil, justo do lado do sol, na terra dos Tamoios, em 29 de setembro de 1950_ no dia do protetor dos Potyguara_ povo catequizado pela igreja há mais de cinco séculos: Era dia de São Miguel. Foi um grito sufocado de quem não queria vir, mas com o esforço dos guerreiros e guerreiras cosmológicos que ajudaram no parto tradicional, eu nasci de minha mãe, uma linda mulher, uma sacerdotisa das águas. Nasci carioca de avós e família indígenas desaldeados vivendo literalmente nas ruas e depois num agrupamento indígena, no Morro da Providência, atrás da Central do Brasil, depois descendo para a Rua General Pedra nº 263, numa comunidade de imigrantes da 2ª Guerra mundial, misturados com as prostitutas da Região do Mangue.


Eu tinha muita fome e logo me alimentei de meu próprio dedo polegar esquerdo, e ainda me lembro da cicatriz de tanto que o chupava e o mordia. Nasci precisamente um ser humano dessa vez, ou melhor, uma ser humana, coincidentemente ou não, do gênero feminino, pobre, de origem indígena de avós indígenas nordestinos, imigrantes no Rio de Janeiro. Nasci um lindo bebê, apesar de tão magrinho!


Interessante é que minha avó era analfabeta e desenhava o seu nome quando pediam e, muito mal marcava com tinta roxa, os documentos com o dedo polegar. Meus pais mal completaram o curso primário. Tios e tias eram analfabetos. Foi o caos!


Já nasci predestinada a pertencer a uma estatística esmagadora de pobres e excluídos social e economicamente no mundo.


O que seria a pobreza, eu sempre me perguntava? Já que ninguém me respondia, então comecei a dar vida a meus pés, aos meus próprios olhos, a visão, as janelas da alma!


O olhar foi minha grande arma contra o espírito obsessor de tudo aquilo que queria se impor de forma estranha à minha frente. Criei meu próprio muro e do lado de cá, comecei cedo a eleger e me relacionar com o bem, com a paz e a justiça. E elegi esses dons como bandeiras por toda uma existência. E elegi também a palavra como minha arma, aquela que se atira ao vento, que flutua e ecoa nos ouvidos e espíritos humanos.





Foi precisamente o “olhar” minha primeira ação política que definiu e ainda define meu estar no planeta Terra... Meus olhos saltitavam e iam atrás das palavras!







Nossa Casa Ancestral


Em que corpo estás?


Estás no ar, no sol, na luz


Estás no infinito


Estás nos séculos


Tão poucos séculos, diante da nossa eternidade


E quando nos veremos?


Sinto-te sempre


Na música, no sol, nas águas


No calor, no frio, nos ventos


Em cada estado, país ou continente


Sinto-te sempre meu amor


Apesar do que fizeram conosco!
Mostra-me o caminho


Mostra-me em sonhos


Em cânticos, a nossa libertação.
Intocável é a nossa Casa


Nossos filhos cresceram, morreram e renasceram.


Tornaram a morrer


Nossos filhos indígenas


Quase estão cegos pelo que aconteceu naquele dia


Muitos não reconhecem mais a sua mãe


Até as costas lhe deram


Pouco restou das cerimônias


Somente a dança com fé.


E não reconhecem mais a filha do pajé
Lembra-te das cerimônias sagradas


Quando banhávamos nus?


E que nossos corpos penetravam as profundezas do Planeta Terra?


Mergulhávamos e trazíamos


Dezenas de crianças


Filhas Dela!
Mas meu amor


Dá--me tuas fortes mãos


Leva-me em tuas grandes asas sagradas


E dá-me força e poder


Porque o implacável Criador


Manda-me voltar séculos e séculos


E a ele levar a sagrada Raiz da Lagoa Akujutibiró


A sagrada Raiz?


Está coberta de lama endurecida
Pelo peso da opressão dos séculos


E minhas mãos indígenas de mulher


Ainda estão frágeis e sangram


E se ferem nos espinhos dos pântanos!
Tento me esconder na barriga da Mãe-Terra


E esquecer nossos filhos


Mas vejo Tupã chorar


Vejo nossos filhos sofrerem


Então... O espírito do mar


Uma grande névoa azulada


Envolve-me, seduz-me, encanta-me


E levanta-me na chama guerreira


E faz-me falar, cantar e gritar...
Até que um dia


Os nossos filhos mortos, nascidos, e renascidos
Possam relembrar do olhar, docemente,


Da luz envolvente


E da tinta de jenipapo


Cravada pelo Grande Espírito em nossa cara.






***


Apesar de ter nascido com várias identidades, a melhor que eu gostava, era a de ser interplanetária, mas quando eu olhava minha avó, uma mulher de traços fortes, olhos rasgados, pele ressecada pelo sol nordestino e oceânico indígenas, suas lágrimas, eu me preocupava. Seus seios e ventres eram proeminentes, eu percebia nitidamente, o sofrer daquela mulher. Eu não sabia o que era o sofrer. Eu viajava nas suas lágrimas que às vezes vinha com o alcoolismo escamoteado. Eu me indignava!


As minhas primeiras perguntas da minha vida foram precisamente essas: O que era a pobreza? Porque chorava minha avó?


Quando eu tinha seis anos, minha avó me deu uma pedra de cor verde alface clara, de uns 20 cm, quase que transparente.


À tardinha vovó contava histórias e, eu e minhas pequenas mãos manuseávamos aquela pedra como que algo magnético, mágico, poético e porque não dizer cosmológico. Meu olhar fixava naquela pedra e meus ouvidos nas histórias de minha avó Maria de Lourdes de Souza. Essa pedra era a extensão cosmológica de nossa cultura indígena, o lado que não se podia tocar, era a história, o lado imemorial, o transcendental, o espiritual possivelmente, a essência de nossas vidas. Isso nos pertencia verdadeiramente? Representava a cultura de nossa família? Representava a cultura e extensão cultural de um povo colonizado, catequizado? Seria o que a líder e pajé Potyguara Maria de Fátima Potyguara, assim como os velhos e velhas, chamavam de “mesinha” (cultura de mesinha)? Certamente que sim!


Essa extensão celular de uma cultura generalizada era parte do todo. Minha pequena vida e pequena história faziam parte de um contexto social, político e econômico. Tinha origem, tinha nome, tinha etnia. Então eu existia.


A cultura indígena, na minha família ia além daquilo que podemos ver, ia inclusive, além da representação territorial, e que me perdoe a ciência antropológica. Um povo, mesmo fora dessa representação territorial, é capaz de manter-se vivo e fazer perdurar sua cosmovisão, por mais esfacelada que ela esteja. Manter-se firme e verdadeiro à sua ascendência é fidelidade e dignidade contra o espírito da destruição.


Nos anos de 2000 surge no cenário indígena a jovem Dra. Lúcia Fernanda Jófej, da etnia Kaigang do Sul do Brasil, uma das primeiras advogadas indígenas no Brasil, extremamente inteligente, grande oradora_ que simbolicamente acalentei em meu colo com definições teóricas sobre propriedade intelectual dos povos indígenas, era filha de minha amiga e líder indígena Andila Inácio que muito eu admirava. Ao ouvir dessa jovem mulher indígena de garra, me lembrei de tudo que havia vivido com minha avó e família indígenas depauperadas pela neocolonização do algodão na Paraíba. Esse era o berço de minha doce avó e madrinha. Realmente uma líder formadora de opiniões. São histórias que o/as jovens não entendem e mal podem aceitar ou reconhecer. São histórias que não foram contadas e nem são permitidas essa contação. São coisas de gente muito velha, e de velhos e velhas que não têm espaço nem vozes nesse país, ainda. Eu sou fruto desse processo.


Na Conferência do Enlace Continental de Mujeres Indígenas, no Canadá, no território dos Mohaks, em junho de 2007, as mulheres jovens e anciãs transformavam o IMEMORAL de nossas vidas em teses e declarações, planos de ações políticas para a defesa da cultura indígena em todo o mundo. Indígenas e indigenistas brasileiros ainda precisam perceber essa imemoriabilidade não contada, não expressa no óbvio, nas aldeias e na cultura. Muitas das vezes, história a ser contada pode não ser um requisito necessário. O obscurantismo, o segredo não revelados podem ser os caminhos da perpetuação da ética. Há muito mais além do que os olhos possam perceber.


As lágrimas de minha avó e o olhar estagnado no ar formavam o resultado da violação aos direitos humanos das mulheres indígenas, mais precisamente o resultado da descriminação racial e social que burlava a memória ancestral, as histórias, a espiritualidade indígena de uma família.


Enfim, parte perdida, célula solta, desgarrada, discriminada internamente, não reconhecida até pelo seu próprio povo, porque minha família não ficou lá, nenhuma única voz para contar essa história. A existência dessa família caiu no anonimato e no esquecimento, uma cruel realidade. Essa parte pode estar perdida no contexto comunitário, territorial, mas não está perdido no contexto cosmológico, imemorial e visionário. Assim tem acontecido com muitas famílias indígenas “destribalizadas” por qualquer tipo de problema.


Eu não poderia deixar de falar desse conceito ao falar de minha vida. E foi exatamente ali, naquela pedra verde alface que o mundo cosmológico se formou em minha mente, através das histórias que a minha avó_ uma vendedora de bananas_ contava, enquanto retirava lêndeas de meus cabelos negros e lisos. Ás vezes eu sentava entre as pernas de minha mãe, e num calor e carinho sobrehumanos, horas e horas as pobres lêndeas eram dilaceradas entre as unhas dos dois polegares de mamãe. Eu quase dormia e entre uma soneca e outra eu dava um pulo e um grito de incômodo, para não dizer da dor da puxada de cabelo, quando mamãe arrancava aquele animalzinho intruso e ele se recusava a sair. Os piolhos parecem que adoravam também o carinho das mulheres por isso adorava aquele calorzinho capilar!Quem não gosta de amor, carinho e histórias?


Depois vovó me dava o café da tarde, beiju caseiro, inhame ou fruta-pão quentinho que eu adorava!


Foi nesse cenário que vivi a minha solitária infância, mas cheia de amor.


Por causa do deslocamento total interno da família para o Rio e Janeiro, as mulheres da minha casa não permitiam que eu brincasse com outras crianças e me aprisionaram num quarto durante toda a minha infância, onde eu dormia num baú doado pelos portugueses, imigrantes da 2ª guerra mundial. Eu nunca me lamentei pela perda da infância, a infância normal de todas as crianças. Eu agradeço a proteção e a forma cultural de educação indígena. Foi por essa proteção que acabei nascendo uma anja um pouco torta. Ninguém é perfeito não é? Amigas de minha família diziam que eu era um anjo e eu me perguntava, porque um anjo. Eu era, segundo meu olhar crítico, uma anja, se é que era mesmo. E também ficava imaginando o mundo dos anjos que amigas de minha família não indígena se referiam. Era o anjo Gabriel, anjo Rafael, Anjo Miguel, Anjo Uriel todos eles do sexo masculino. E eu tinha que ser um anjo como diziam: “essa menina é um anjo!” Viajando na pedra verde e na sincronicidade do tempo, hoje eu me pergunto: E a anja Doroty, por exemplo? Uma indígena que muito contribuiu com os Bakairi. E a anja Maninha Xukuru-Kariri, irmã do espaço sideral, foi-se fisicamente e deixou mensagens para seu povo. E as anjas Mães de todas e todos líderes de nosso país? E a anja especial Mãe de Marçal Tupã-y entre outras.


Anja também foi minha saudosa avó. Anja foi minha severa e adorável mãe, hoje rainha do espaço. Com elas aprendi a ter dignidade, a combatividade, força e coragem. Foi por causa delas que entrei para o movimento indígena desde 1976. Mas foi com sete anos, precisamente que me tornei uma pequena escritora, porque eu precisava escrever as cartas que vovó ditava. E ao lado disso, precisava ler as cartas que chegavam da Paraíba. Por essa razão, me sinto paraibana, uma das milhares identidades que tenho. Conheço na palma da minha mão, as linhas dos sofrimentos do exílio de minha avó e peço respeito a essa identidade. Faço parte destas histórias no sangue e nos fatos. Conheço a pobreza paraibana, a partir de dentro de minha própria casa. Conheço a burguesia e o poder paraibanos dos anos 20 e 30, mesmo ainda no útero, porque eles foram os causadores de nossos sofrimentos e angústias. São rastros que ficaram e a justiça nunca foi feita. Só ignorada e invisibilizada. Aquele contingente de pessoas imigrantes_ minha família_ poucos descendentes deixaram. Todos e todas morreram pelos maus tratos da imigração. Eu e meu irmão somos os últimos daquela geração sacrificada pela pobreza. E eu não tenho mais lágrimas, elas secaram como o chão agreste, mas a cotovia canta e ecoa em palavras... E a alma voa! “E não se seca a raiz de quem tem sementes espalhadas para brotar”, escrevi isso há mais de vinte anos, no poema “Oração pela Libertação dos Povos Indígenas”, um cântico.


A pobreza é a maior violação dos direitos humanos, eu não sabia disso quando era criança. As lágrimas de minha avó, assim como a vida de milhares de mulheres indígenas do mundo, refletem esse tipo de violação. A pobreza é o resultado das maiores competições, guerras e conflitos do planeta Terra. As mulheres e crianças sofrem com a pobreza. A pobreza é um fator determinante de violência a um ser humano.


É preciso erradicar a pobreza no planeta Terra. É preciso dar voz aos calados, aos excluídos. Centenas de tratados, convenções, declarações foram escritos no contexto nacional e internacional, mas a pobreza continua. O que está faltando? Será que não há um mito errôneo com relação às mulheres. Vejamos:


Toda mulher quer ser mulher, porque ser mulher é também contribuir com a ética para o crescimento da Humanidade, principalmente quando ela busca não perpetuar a cultura dominante e secular que impõe padrões preconceituosos na criação dos filhos e filhas. Toda mulher quer ser mulher por perceber a luta pela igualdade de gênero e quando ela trabalha para isso na nova sociedade, no cotidiano de sua vida, nas relações com o esposo, filhos, filhas, irmãos, irmãs, parentes e amigos. Nos dez pontos que escrevi no Dia Internacional da Mulher, em março de 2006, no texto “Quer ser Mulher? Perguntou Deus!” (veja em: http://grumin.blogspot.com) tive o objetivo de polemizar e chamar a atenção da sociedade para diversas culturas e regimes sócio-político e econômicos que impõem uma vida indigna às mulheres.Temos muitos avanços na classe média ou nos grupos mais esclarecidos, quando mulheres já possuem diversas posições no contexto social e quando seu status no lar atinge patamares respeitáveis, salvo exceções como, por exemplo, em relação aos assassinatos de mulheres jornalistas, artistas e outras profissionais e com ascensão econômica. No entanto, as mulheres pobres e as altamente miseráveis de todas as etnias sofrem ainda em conseqüência da violência masculina e discriminação da própria sociedade. E esse fato é um desafio para grupos de mulheres organizadas por seus direitos e um desafio para os governantes no setor da Educação, Trabalho e Saúde, tanto no Brasil quanto nos outros países.


Eu convoco homens e mulheres_ cidadãos, cidadãs do mundo_ a refletirem das sobre a idéia errônea de que as mulheres são exemplos de estereótipos de santas, anjos ou demônios.


A mulher é sagrada, sim! Porque ela dá a vida, assim como a natureza é sagrada por prover vida. Mas a mitificação da mulher pelo homem causa estragos, desvios comportamentais, pornografias, culturas dominantes, atos selvagens contra o sexo feminino, como vemos nos outros países e inclusive no Brasil.


Vamos adorar nossas mães apenas no sentido poético, amoroso, porque a exacerbada veneração leva à mitificação maléfica, que na realidade é um desrespeito à mulher. Mães querem ser amadas e respeitadas. Amo a minha mãe pelo que sou, devo a ela respeito e ela está na minha memória, porque foi uma grande iletrada mulher, mas possuía conceitos e lições de uma verdadeira mulher.


Voltando à questão do sentimento de infância e ao olhar com relação à pobreza, hoje passados 60 anos da minha vida, ainda temos mais de 300 milhões de indígenas no planeta terra, vivendo em 70 países que sofrem da pobreza, mas mantêm-se culturalmente falando mais de seis mil línguas diferentes. Os povos mantêm uma bagagem cultural imemorial e que não se pode se medir em valores. Só na América Latina temos 50 milhões de indígenas que convivem diariamente com a pobreza, o analfabetismo e desinformação, sendo as mulheres indígenas mais vulneráveis. São as mulheres as despossuídas de ferramentas e meios para manter a enorme tarefa de transmitir a cultura às novas gerações, mantendo a identidade e demonstrando à humanidade o papel altamente importante da manutenção da identidade indígena.


Hum milhão de indígenas vivem também nas cidades, mas ninguém perdeu sua ancestralidade indígena e a consciência indígena tem crescido para o bem da identidade. Queria que minha avó estivesse viva para ver esse fenômeno histórico. Certamente suas lágrimas secariam de tanto sorriso na face. É possível uma mudança a partir da escola. E mais... Podemos orar por melhores condições de vida!






ORAÇÃO PELA LIBERTAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS


Dedicado a Marçal Tupã-y, cacique guarani nhandewa assassinado em 1983






Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada


Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz


Cessem de arrancar os meus pulmões e sufocar minha razão


Chega de matar minha cantigas e calar a minha voz.


Não se seca a raiz de quem tem sementes


Espalhadas pela terra pra brotar.


Não se apaga dos avós _ rica memória


Veia ancestral: rituais pra se lembrar


Não se aparam largas asas


Que o céu é liberdade


E a fé é encontrá-la.


Rogai por nós, meu pai - Xamã


Pra que o espírito ruim da mata


Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte.


Rogai por nós _ terra nossa mãe


Pra que essas roupas rotas


E esses homens maus


Se acabem ao toque dos maracás.


Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia,


Ajudai a unidade entre as nações.


Alumiai homens, mulheres e crianças,


Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão.


Dai-nos a luz, fé a vida nas pajelanças,


Evitai, ó Tupã, a violência e a matança.


Num lugar sagrado junto ao igarapé


Nas noites de luas cheia , ó Marçal, chamai


Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré.


Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés


Uma resistência de vida


Após bebermos nossa chicha com fé.


Rogai por nós, ave-dos céus


Pra que venham onças, caititus, siriemas e capivaras


Cingir rios Juruena, São Francisco e Paraná.


Cingir até os mares do Atlântico


Porque pacíficos somos , no entanto.


Mostrai nosso caminho feito boto


Alumiai pro futuro nossa estrela


Ajudai a tocar as flautas mágicas


Pra vos cantar uma cantiga de oferenda


Ou dançar num ritual Iamaká.


Rogai por nós, Ave-Xamã


No Nordeste, no ul toda a manhã


No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã.


Rogai por nós, araras, pintados ou tatus


Vinde em nosso encontro


Meu Deus _ Nhendiru!


Fazei feliz nossa mintã


Que de barrigas índias vão renascer.


Dai-nos cada dia a esperança Porque só pedimos terra e paz


Pra nossas pobres- Essas ricas crianças.











Eliane Potiguara é professora, escritora, contadora de histórias, ativista indígena e feminista. Foi indicada em 2005, ao Projeto Internacional “Mil mulheres ao Prêmio Nobel da Paz”. É fundadora e coordenadora da 1ª organização de mulheres indígenas no país (GRUMIN/Grupo Mulher-Educação Indígena) e co-participe política da criação e evolução do movimento indígena brasileiro. Diretora do INBRAPI (Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade intelectual) Foi eleita uma das 10 mulheres do ano de 1988 no Brasil, participou por uma década da elaboração da Declaração Universal dos Direitos Indígenas na ONU em Genebra. Autora de vários livros, entre eles "Metade Cara, Metade Máscara” Global Editora e no prelo “A Cura da Terra”.


www.elianepotiguara.org.br
http://elianepotiguara.blogspot.com
www.grumin.org.br


http://www.triplov.com/novaserie.revista/numero_18/eliane_potiguara.html