segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Muçulmanos estão entre principais vítimas de intolerância religiosa no Rio
- Representante da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio, Fernando Celino ora ao lado de mulheres muçulmanas na Mesquita da Luz
Insultos, cusparadas, pedradas e ameaças de morte são algumas das denúncias de agressões contra muçulmanos no Rio de Janeiro nos últimos meses.
Depois dos adeptos das religiões de matriz africana, os seguidores do islã são os que mais sofrem com a intolerância religiosa no Estado, segundo o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos e Assistência Social. Desde janeiro, pelo menos uma denúncia é recebida mensalmente. A estimativa é que haja 2.000 muçulmanos vivendo no Rio.
Os números destoam dos demais Estados do Brasil. Apenas cinco denúncias de islamofobia foram feitas ao Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. As mulheres, mais facilmente identificadas nas ruas pelo uso do véu, são as principais vítimas de violência.
A aeromoça Ana Cláudia Mascarenhas, 43 anos, levou um soco de um homem após ser xingada de terrorista em pleno centro da cidade.
"Fui fazer exame médico e notei que uma pessoa me seguia. Ele parou atrás de mim, começou a me xingar e a dizer que odiava terroristas. Fiquei quieta, pois não sou terrorista. Quando o sinal abriu, ele me puxou pelo braço, repetiu que odiava terrorista e me deu um soco no rosto. Saí correndo como louca, sem olhar para trás. Se às 7h, com toda aquela gente na rua, ele fez isso, não gosto de imaginar o que faria se eu reagisse ou respondesse", afirmou Ana Cláudia.
Um dos casos denunciados ao Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos foi um trote universitário com uma estudante muçulmana. Colocaram fogo no hijab [véu] da menina, que acabou tendo o couro cabeludo queimado.
A coordenadora do centro, Lorrama Machado, lamentou que, durante um curso de formação para peritos criminais da Polícia Civil sobre o tema, um agente tivesse comentado que pessoas como a menina mereciam morrer.
"A equipe ficou em choque. Por sorte, outros colegas do perito o contestaram e vimos que era uma posição isolada. Mas esse policial, agora formado, pode um dia ser responsável por analisar um crime contra um muçulmano", disse Lorrama. "Que tipo de laudo ele dará com essa opinião sobre muçulmanos? Por isso é importante informar e conscientizar", acrescentou.
A Lei 7.716, de 1989, protege fiéis de todas as crenças, prevendo cadeia para quem cometer crimes de intolerância religiosa. De acordo com o assessor de Comunicação da SBMRJ (Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro), Fernando Celino, muitos policiais não são treinados para identificar crimes de intolerância religiosa.
Segundo Celino, uma muçulmana que frequentava a mesquita já fez dois boletins de ocorrência contra o vizinho que a ameaçou de morte mais de uma vez, mas os policiais tratam o caso como briga de vizinho. "Por isso, o assédio continua. Há muitas delegacias que tipificam um caso desse de forma errada, como calúnia, injúria ou qualquer outra coisa, sem dar a real importância, tratando como um crime menor."
Fernando Celino informou que outro caso de intolerância ocorreu no início do ano, quando um motorista de ônibus expulsou a passageira, dizendo que não transportava mulher-bomba. Também neste ano, uma professora de inglês teve o emprego ameaçado por pais de alunos que pediram ao dono do curso para que a demitisse, pois não queriam "mulher de Bin Laden" dando aulas para os filhos.
"Outra muçulmana foi tema de reunião de condomínio. Os moradores queriam a saída dela e de sua família do prédio por medo de que escondessem bombas. Somos um Estado muito acolhedor quando o assunto é samba e turismo, mas não aceitamos o novo", criticou Lorrama. O fato mais recente foi de apedrejamento, seguido de cusparadas a uma moça em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense.
A atendente de telemarketing, Ana Carolinha Jimenez, 22 anos, também passou pela humilhação de ser atingida por uma cusparada. "Estava no ponto de ônibus. Alguns jovens no ônibus começaram a falar bobagem e a me xingar. Quando o ônibus partiu, eles cuspiram. Senti uns respingos, limpei e continuei olhando para frente."
Se as agressões físicas não são rotina, o desrespeito é diário. "Ouço risadas pelo menos uma vez por dia. As pessoas apontam, se cutucam. A maioria acha que nem somos brasileiras. A primeira coisa que falam é: 'volta para seu país'", disse Ana Cláudia.
De acordo com a coordenadora do centro, mais de 90% das vítimas são brasileiras natas, que se converteram ao islamismo na idade adulta.
Mercado de trabalho
O preconceito também é um obstáculo para as mulheres no mercado de trabalho. Ana Carolina passou por cinco entrevistas e em todas a retirada do véu durante o trabalho era pré-condição para a contratação. "Fiz vários cursos de especialização em secretariado executivo e sou fluente em inglês. As pessoas gostam do meu currículo, mas querem que eu tire o véu, mesmo eu afirmando que ele não atrapalha meu desempenho. Para mim, é como se eu tivesse de trabalhar de sutiã. O véu não é um acessório para a cabeça."
Após mais de cem currículos distribuídos e um anos depois, ela conseguiu emprego como assistente de telemarketing. "Para mim, é frustrante, mas sou grata a essa oportunidade, pois estava precisando."
Ana Cláudia trabalha sem o véu a contragosto. Como está na empresa há muitos anos e essa é a principal renda da família, não tem como abdicar do emprego. "A vestimenta faz parte da religião. Até tentei levar isso adiante, mas sou a única muçulmana na empresa. Saio do avião e coloco o véu. Para mim é muito difícil."
Dossiê
As denúncias se intensificaram em 2015, de tal modo que, em julho, o centro encaminhou aos Ministérios Públicos Federal e Estadual um dossiê elaborado pela SBMRJ sobre casos de islamofobia pela internet. O documento também foi entregue à Polícia Civil e Delegacia de Crimes de Internet e à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. A Polícia Civil e o Ministério Público já começaram a investigar o caso.
No documento, são denunciados páginas e vídeos na internet que atacam a religião islâmica com inverdades sobre Maomé, principal profeta do Islã. Há fotos de muçulmanos brasileiros, acusados de terroristas. Ainda segundo o dossiê, a maioria das páginas afirma que o terrorismo é algo intrínseco ao islã.
Conforme o dossiê, em uma das páginas, a circuncisão é descrita como mutilação imposta pelo islã às mulheres, "quando, na verdade, é recomendada pela religião aos homens". Em outra página, há uma referência inexistente no Alcorão de que o islã permite o estupro. Segundo a SBMRJ, esse tipo de iniciativa contribui para que mulheres muçulmanas sejam agredidas.
Coordenador de Diversidade Religiosa do governo federal, Alexandre Brasil Fonseca informou que o Ministério da Justiça, em parceria com outros Ministérios e órgãos do governo, já se mobilizou para apurar as denúncias.
"O caso está sendo investigado por um grupo de trabalho de combate a crimes de internet. Como estado, é importante garantir essa atividade religiosa, assim como combater as ações de preconceito e discriminação, que, infelizmente, temos notificado." Fonseca destacou que cerca de 35 mil pessoas se declararam seguidores do islamismo no Censo de 2010.
O governo do Rio lançará uma campanha até o fim do ano para combater atos de intolerância e violência contra muçulmanos. A campanha é fruto de uma articulação entre as secretarias de Direitos Humanos e Assistência Social e das Mulheres e do Trabalho.
"Prezamos muito a paz, a confraternização e o bom relacionamento com as pessoas, o contrário do que dizem do islã. Respeitamos todos, mas não somos respeitados", disse a jovem Ana Carolina.
"Temos uma ótima relação com todas as religiões. E temos um interesse em comum, que é o direito constitucional à liberdade de crença. Não pedimos nada além disso", concluiu Fernando Celino.
http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/08/22/muculmanos-estao-entre-principais-vitimas-de-intolerancia-religiosa-no-rio.htm?cmpid=fb-uolnot
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18.jul.2015 - Muçulmanos oram na mesquita Jama Masjid, em Nova Déli, neste sábado (18), em celebração do Eid al-Fitr. Muçulmanos de todo o mundo comemoram Eid al-Fitr, feriado que marca o fim do mês sagrado do Ramadã. Money Sharma/AFP
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Trajetórias e cotidiano de Muçulmanos no Brasil
Trajetórias e cotidiano de Muçulmanos no Brasil
Palestrantes
Salem Nasser
Presidente do Instituto de Cultura Árabe desde 2012. Doutor em Direito Internacional pela USP. Professor da Escola de Direito de São Paulo da FGV. (Foto: Acervo pessoal)
Samira Osman
Professora de História da Ásia da UNIFESP, pesquisadora da História do Oriente Médio, Islamismo e Imigração Árabe. Autora do livro: Imigração Árabe no Brasil: história oral de libaneses muçulmanos e cristãos (SP: Xamã, 2011). (Foto: Acervo pessoal)
Sarah Ghuraba
Professora de teatro na rede estadual de ensino. Graduanda em Língua Portuguesa pela Faculdade Sumaré. Ministra ensinos islâmicos para mulheres na mussala do Embu da Artes, dona do blog Ummah Brasil. (Foto: Acervo pessoal)
Érica Renata
Formada em Letras, contadora de histórias. Atuou como docente universitária convidada nos cursos de Pedagogia e Letras (UNIESP), palestrante do Simpósio Nacional sobre Multiculturalismo, Preconceito e Racismo no Brasil (UNIESP) e I Simpósio Sudeste da ABHR sobre diversidades e (in) tolerância religiosas (USP). (Foto: Acervo pessoal)
Renatho Costa
Bacharel em Relações Internacionais, Mestre e Doutor em História Social (FFLCH-USP). Professor de Relações Internacionais da UniPampa e Coordenador do Grupo de Análise Estratégica - Oriente Médio e África Muçulmana. (Foto: Acervo pessoal)
Programa
18/08 – Introdução ao mundo muçulmano
Uma introdução à história do Islã, especialmente aquela de seu surgimento, de seu pertencimento à tradição monoteísta, de sua expansão, de suas divisões e do desenvolvimento de suas escolas de pensamento. Uma introdução igualmente à contemporaneidade do mundo muçulmano e à sua relevância para a compreensão do quadro político mundial.
Com Salem Nasser.
20/08 – Mulheres muçulmanas
Neste encontro a profa. Samira analisa a percepção apresentada nos diversos suportes midiáticos brasileiros sobre a questão da mulher muçulmana, do ponto de vista das oscilações de uma imagem de submissão e do papel de vítimas universais na violação dos direitos humanos. Propõe-se analisar o modo como estas mulheres são vistas e representadas, muitas vezes acompanhadas de um sentimento da “compaixão ocidental” por elas. Sarah Ghuraba e Érica Renata relatam suas experiências enquanto brasileiras muçulmanas.
Com Samira Osman.
Com Sarah Ghuraba.
Uma introdução à história do Islã, especialmente aquela de seu surgimento, de seu pertencimento à tradição monoteísta, de sua expansão, de suas divisões e do desenvolvimento de suas escolas de pensamento. Uma introdução igualmente à contemporaneidade do mundo muçulmano e à sua relevância para a compreensão do quadro político mundial.
Com Salem Nasser.
20/08 – Mulheres muçulmanas
Neste encontro a profa. Samira analisa a percepção apresentada nos diversos suportes midiáticos brasileiros sobre a questão da mulher muçulmana, do ponto de vista das oscilações de uma imagem de submissão e do papel de vítimas universais na violação dos direitos humanos. Propõe-se analisar o modo como estas mulheres são vistas e representadas, muitas vezes acompanhadas de um sentimento da “compaixão ocidental” por elas. Sarah Ghuraba e Érica Renata relatam suas experiências enquanto brasileiras muçulmanas.
Com Samira Osman.
Com Sarah Ghuraba.
Com Érica Renata.
21/08 – Muçulmanos no Brasil
A migração de árabes ao Brasil está vinculada a eventos específicos ocorridos no Oriente Médio. Mais precisamente, aos conflitos que envolveram a criação dos Estados árabes. Os ciclos migratórios de árabes estão vinculados aos desdobramentos e intensidade dos conflitos. Após a criação do Estado de Israel e ampliação do tensionamento local, muito árabes se deslocaram para os países circunvizinhos e outros fugiram para a América. As guerras civis como a libanesa que durou quinze anos também foi um forte impulsionador do processo migratório. A grande maioria da população árabe é formada por muçulmanos, no Brasil houve a fixação em regiões, como São Paulo, Foz do Iguaçu e Rio Grande do Sul. Atualmente há mais libaneses no Brasil do que no próprio Líbano.
Com Renatho Costa.
22/08 – Visita à Mesquita Brasil
Primeira mesquita do Brasil, inaugurada em 1952 está instalada no bairro do Cambuci. Durante a visita as mulheres devem usar o “rijab” (véu) fornecido na própria mesquita para os visitantes. As roupas não podem ser justas, nem transparentes, tanto para as mulheres quanto para os homens e devem cobrir braços e pernas.
Com Sarah Ghuraba.
As inscrições pela internet podem ser realizadas até um dia antes do inicio da atividade. Após esse período, caso ainda haja vagas, é possível se inscrever pessoalmente em todas as unidades. Após o início da atividade não é possível realizar inscrição.
(Imagem ilustrativa: Chris Beckett)
http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/trajetorias-e-cotidiano-de-muculmanos-no-brasil
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Profissionais da educação discutem cyberbullying
| Postado por: CLAUDIA MUNIZ Fonte: Data de publicação: 28/07/2015 http://www.cidadedoconhecimento.org.br/cidadedoconhecimento/cidadedoconhecimento/index.php?subcan=7&cod_not=41643 A violência virtual, praticada pela internet ou por meio de tecnologias, conhecida como Cyberbullying, é um tema cada vez mais presente no ambiente escolar. Para capacitar professores a como prevenir e trabalhar o assunto entre os estudantes, a Secretaria Municipal da Educação promoveu nesta segunda-feira (27) um encontro entre profissionais representantes de 107 escolas municipais. O encontro, realizado no Centro de Formação Continuada, teve a participação da especialista e doutora em tecnologia e sociedade Cineiva Campoli Tono. Ela atua no Departamento de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Administração Penitenciaria do Paraná e falou aos profissionais da educação sobre a importância da reflexão da violência nas redes sociais, além de oferecer ao grupo informações sobre como desenvolver projetos e estratégias de intervenção, tanto no ambiente escolar quanto no entorno, para prevenir as ameaças causadas pela divulgação de conteúdo na internet. Promovido pela Coordenadoria de Atendimentos às Necessidades Especiais (CANE), o objetivo do encontro foi ampliar os conhecimentos das equipes escolares que participam do projeto “Bullying não é brincadeira”, que desde o ano passado tem trabalhado o respeito ás diferenças entre os estudantes a partir do combate às violências. Cineiva salientou o fato de a internet ser um ambiente e um meio de comunicação que exige cuidados. “Os jovens devem ter consciência de que o que postam pode ir além de uma brincadeira, que pode ser ofensivo ou desrespeitoso. E são os pais que devem impor limites também para os filhos. No entanto, a escola tem um papel fundamental que é o de partilhar, instigar e alertar às famílias para o perigo que perpassa o cyber”, disse Cineiva. A coordenadora da CANE, Elda Bissi, explicou que a intenção do encontro foi oferecer aos profissionais informações e orientações sobre como a escola deve ficar atenta ao novo formato de violência e como deve proceder diante de possíveis acontecimentos. “A escola como ambiente de aprendizagem e preparação para a vida individual e coletiva deve se manter atenta a todos os possíveis acontecimentos que possam causar danos ao processo evolutivo do aluno. Nesse sentido, buscamos uma escola resiliente frente à temática de todas as formas de bullying ”, disse Elda. A professora da Escola Municipal Cerro Azul, no Tingui, Sara Strapasson desenvolve o Projeto “Bullying não é brincadeira” com estudantes do 1.º ano. Para ela, a conscientização é o primeiro passo para que as pessoas tomem conhecimento dos perigos e cuidados que devem ter com determinados assuntos. “Discutir o assunto desde a infância é fundamental para que os alunos respeitem as diferenças, aceitem o outro e possam conviver em harmonia. Nosso trabalho deve ser em parceria com a família para evitar a relação da violência com a tecnologia”, disse Sara. Entendo que o Cyberbullying é uma ação de agressão e desrespeito ao indivíduo que ocorre no plano virtual, principalmente por meio de sites de relacionamentos, a professora Luciana Brandão, da Escola Municipal Itacelina Bittencourt, no bairro Guaíra, disse acreditar que as ações sobre o assunto devem ser abordadas de maneira ampla. “Devemos abordar o assunto de maneira integrada às ações curriculares no intuito de respeitar às singularidades e diversidades encontradas no ambiente escolar. O Projeto Bullying não é brincadeira é uma iniciativa importante para inserir os alunos numa discussão orientada e assertiva sobre os riscos da internet”, diz Luciana. Singularidades,/b> O projeto Bullying não é Brincadeira da Secretaria Municipal da Educação iniciou em 2014 e tem a participação de 81 mil estudantes de 107 escolas municipais e dezenas de professores promovendo a cultura da paz, respeito à singularidade e à diversidade no ambiente educacional, em especial entre as pessoas com deficiência. A adesão ao projeto é opcional, cabendo às escolas decidirem pela proposta de prevenir as agressões entre os estudantes a partir de duas frentes. A primeira, de orientar os profissionais das escolas, centros municipais de educação infantil (CMEIs) e demais unidades escolares sobre o que deve ser feito para evitar bullying. A segunda é envolver de forma lúdica e atrativa os estudantes e suas famílias na discussão sobre a necessidade de respeito à singularidade e diversidade de todos no ambiente educacional. | |||||
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Alunos se “vacinam” contra o bullying
Ação na rede pública de Curitiba cria personagens com algum tipo de deficiência ou limitação para ensinar valores de respeito às crianças
- Naiady Piva
Texto publicado na edição impressa de 18 de agosto de 2015
Que Zé Gotinha, que nada. Na Escola Municipal Piratini, em Curitiba, são as próprias crianças que fazem as vezes de agentes de saúde para distribuir vacinas. O líquido é um suco de laranja, e seu efeito é a erradicação do bullying.
A instituição é uma das 107 que integra o projeto “Bullying Não é Brincadeira”, da Secretaria Municipal de Educação (SME), de Curitiba. Com foco nas crianças da primeira etapa do Ensino Fundamental, o projeto busca incidir no bullying antes mesmo que ele atinja sua maturidade.
Ao trabalhar com crianças na faixa dos 6 a 10 anos, o projeto incide naquela fase em que a implicância e o preconceito já existem, mas os valores de certo e errado ainda estão em formação. Não há, por exemplo, registros de cyber bullying (feito em ambiente virtual) na rede municipal, segundo conta Claudia Pericinoto, da Coordenadoria de Atendimento às Necessidades Especiais (Cane) da SME.
Na base do projeto está a turminha de Nina, Lilo, Max, Teco e Lisa. São personagens fictícios, com idade entre 7 e 10 anos, atingidos por leucemia, autismo, problemas de locomoção, cegueira ou surdez.
“A maioria dos personagens não nasceu com deficiência, mas adquiriu com o tempo”, explica Viviane Maito, também da Cane. A escolha é proposital; é uma forma de mostrar às crianças que qualquer pessoa saudável ou considerada “normal” pode necessitar de algum atendimento especial, de uma hora para a outra.
Não só pode como acontece. No ano passado, uma aluna viveu o mesmo enredo de Nina, na Escola Municipal Jardim Europa, no Xaxim. Após o tratamento para leucemia, a garota passou para o atendimento domiciliar, mas na hora de retornar para a aula, surgiu o receio de com os outros iam encará-la“carequinha e mais inchada [por causa dos medicamentos]”, conta Viviane. No fim das contas, ela ganhou uma festa na volta às aulas; e os coleguinhas já estavam preparados para recebê-la com “uma convivência saudável, atitudes positivas”.
Em casa
O projeto “Bullying Não é Brincadeira” trabalha com um material específico, o acompanhamento por parte da Secretaria de Educação e com a adaptação do conteúdo à realidade local, como atividades das escolas. O kit contém cinco bonecos, uma cartilha com as histórias de vida de cada personagem e um folder explicativo, que busca orientar os pais.
A ideia é que os alunos se revezem para levar a pasta com o material completo para casa. A função é dupla; a primeira é que mães e pais tenham a chance de trabalhar a temática do bullying com os filhos. A segunda é função é que os próprios adultos se eduquem para o respeito ao próximo.
A família cresceu
No Capão da Imbuia, a família anti-bullying cresceu. Na Escola Municipal Eneas Marques, a turminha de Teco e Lisa ganhou um amigo “gordinho”, outro ruivo e ainda um terceiro com síndrome de down. Assim como os originais, os personagens novos têm seus próprios bonequinhos.
No Bairro Alto, a turma foi parar nos muros da Escola Municipal Araucária. Já a turminha da Nossa Senhora da Luz, na CIC, montou um coral contra o bullying; e os alunos da Professor Ulisses Falcão Vieira, no Campo Comprido, montaram um teatro, em que “rebobinavam” a cena em que a turma tirava sarro do coleguinha atrasada e a reencenavam, dessa vez sem bullying.
Cada escola faz e deve fazer suas adaptações. De todos os personagens, uma curiosidade. É Lilo, o garoto com autismo, o que faz o maior sucesso. “Nas escolas que eu visitei, nos desenhos e projetos expostos na parede, sempre tinha as atividades voltadas ao público autista, e sempre o desenho dele”, conta Elda Bisso, coordenadora da Cane.
Nem tudo é bullying
O termo “bullying” está na moda. Mas é preciso cuidado para não banalizá-lo: o uso correto do termo permite que soluções que vão direto ao ponto.
Para identificá-lo, são três critérios básicos: intencionalidade, agressividade e frequência. O bullyingtem intenção de atingir, ofender; é sempre acompanhado de algum tipo de violência (física ou verbal); e se repete com frequência, não acontece apenas uma vez.
Já a vítima é aquele aluno que vai ficando amuado, com medo ou sem vontade de ir para a escola, de interagir com os alunos.
Co-autora do livro “Preconceito & Repetição: diferentes maneiras de entender o bullying”, a psicóloga Raquel Kampf explica: “O bullying não é um fenômeno do indivíduo, ele está localizado dentro de uma sociedade. A intervenção não deve ocorre só quando algo já aconteceu, mas ser um trabalho de prevenção com os profissionais que compõe este ambiente, que exista um espaço na escola onde essas questões possam ser discutidas.”
Para os pais, ela dá a dica: é preciso estar aberto ao diálogo. Em especial com os filhos adolescentes, que precisam se sentir respeitados para aprender a respeitar o colega.
A conversa, aliás, é a melhor prevenção. Uma vítima do bullying que tenha um espaço de fala vai poder denunciar aquela agressão aos adultos responsáveis. O mesmo vale para quem observa a violência acontecer. Esta conscientização dos alunos é importante, em especial porque ele muitas vezes acontece fora da sala de aula. Por isso, também é importante que os outros profissionais que estão no ambiente escolar, de zeladores a inspetoras, tenham formação sobre o tema.
http://www.gazetadopovo.com.br/educacao/alunos-se-vacinam-contra-obullying-btrdnxf884olmpk6b9cxjdycd
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